Liliane Brito

Quem foi Sri Aurobindo e a Mãe

Aravinda Ghose, dito Sri Aurobindo, destaca-se, entre tantos Mestres nascidos na Índia, por ter realizado uma valiosa síntese entre o Ocidente e o Oriente. Educado na Inglaterra, adquiriu, dos 7 aos 21 anos, uma sólida formação européia - especialmente nos campos da Literatura e História. Graças a ela, compreendeu a necessidade de se transformar a face do mundo, e, assim, ainda em Londres, engajou-se nos primeiros movimentos em prol da libertação de seu país, à época colônia britânica.

O pai de Aurobindo, um médico completamente ocidentalizado, não permitira que ele tivesse qualquer contato com a cultura e a tradição espiritual indianas, chegando a impedir que os filhos aprendessem sua língua materna, o bengali, falado na região de Calcutá. Mas, ao retornar à Índia, em 1893, dedicou-se ao estudo das tradições de seu país, bem como dos idiomas da região de Baroda, além do sânscrito e do próprio bengali.

A paz profunda que a terra natal lhe dava, após um exílio de 14 anos, facilitava-lhe a encontrar a concentração necessária ao desempenho de inúmeras tarefas, procurando perfeição em tudo o que fazia. Nesse sentido, além dos serviços que prestava ao maharaja de Baroda - desde o trabalho no Departamento de Terras, até a redação de discursos - continuava cada vez mais mergulhado nas atividades políticas.

O escritor Dinendra Kumar Roy retratou o jovem Aravinda, observando que "os cantos dos seus lábios expressavam uma vontade poderosa e inflexível, ainda que em seu coração não houvesse traços de ambição humana (...)" (2).

Nesse mesmo depoimento, o escritor revela o anseio do jovem de se dar completamente, e de reunir tanto conhecimento quanto pudesse, a fim de aliviar o sofrimento da Humanidade.


O espiritual, na prisão

Até esse momento, o jovem Aravinda procurava ampliar seu campo mental ao máximo. Ele ainda não havia se dado conta da necessidade de transcender a esfera do conhecimento mental, embora já tivesse vivido experiências parapsíquicas, desde o regresso à terra natal. Porém, uma salvação solitária, que o retirasse da ação no mundo, da luta pela libertação de seu povo do jugo britânico, era algo que ele não desejava absolutamente.

Foi preciso uma experiência transpessoal poderosíssima para que ele mergulhasse no caminho espiritual (que é sempre um caminho sem retorno). E ela veio a ocorrer num local inesperado: numa cela da prisão de Alipore, onde a polícia britânica o tinha encarcerado, em virtude de sua militância. Na prisão, Aurobindo constatou a força e a eficácia da prece, que o colocou em contato direto com uma força transcendente (para usar suas próprias palavras). Essa força revelou-se em toda parte, ajudando-o a superar todos os sofrimentos que lhe acometiam. Posteriormente, Sri Aurobindo comentou sua experiência na prisão de Alipore, da seguinte maneira:

Eu fui levado a Alipore e colocado numa cela solitária. Lá, esperei dia e noite pela voz de Deus dentro de mim, para saber o que Ele tinha a me dizer, para aprender o que teria de fazer (...). Lembro-me que, mais ou menos um mês antes de ser preso, um chamado tinha vindo a mim para que eu deixasse de lado toda atividade, para que ficasse recluso e olhasse para dentro de mim... Eu não pude aceitar o chamado. Meu trabalho era muito caro para mim... Ele falou comigo novamente e disse: "Os vínculos que você não teve força para quebrar, Eu os quebrei para você... Eu tenho outra coisa para você fazer e foi por isso que Eu lhe trouxe aqui - para treiná-lo para o meu trabalho". (3)
O processo de julgamento durou quase um ano. Os ingleses forjavam provas e arranjavam testemunhas, enquanto Sri Aurobindo vivia em grande angústia física e mental. Sua tortura chegou a um ponto que ele invocou a Deus com intensidade e ânsia, pedindo que Ele evitasse a perda de sua sanidade mental. E veio a resposta:

Naquele momento espalhou-se por todo o meu ser uma tal brisa fresca e suave, que o cérebro aquecido se relaxou, num deleite fácil e supremo como em toda a minha vida nunca tinha conhecido... A partir daquele dia, todos os problemas da vida na prisão terminaram... Naquele dia, num único momento, Deus deu ao meu ser interior uma tal força que aqueles sofrimentos se foram, sem deixar nenhum traço ou marca. Foi possível ser feliz durante o longo e solitário confinamento... Eu também constatei a extraordinária força e eficácia da oração. Uma oração... pode ligar a força do homem a uma força transcendente. (4)
Mas foi no pátio da prisão que ocorreu a nova experiência mística e que se tornou seu turning point (5). Assim Aurobindo relatou-a:

Eu olhava para a prisão... e já não eram mais as altas paredes que me prendiam. Era Vasudeva que estava ao meu redor. Eu andava sob os galhos da árvore em frente à minha cela, mas não era a árvore. Compreendi que era Vasudeva. Era Krishna que eu via em pé, projetando em mim Sua sombra. Eu olhava para as grades de minha cela (...) e novamente via Vasudeva. Era Narayana que a estava guardando como uma sentinela... Ou eu me deitava sobre os cobertores ordinários que me foram dados como colchão e sentia os braços de Sri Krishna envolvendo-me, os braços de meu Amigo e Amante... Eu olhava para os prisioneiros (...), os ladrões, os assassinos, os trapaceiros e, à medida que os olhava, via Vasudeva; foi Narayana que encontrei em suas almas escurecidas e em seus corpos maltratados (6)(Narayana, Vasudeva e Krishna são nomes diferentes da Divindade Única).

Após essa experiência, Sri Aurobindo nunca mais foi o mesmo. Ele ouviu a voz de Swámi Vivekananda, numa noite, durante uma meditação, e progressivamente os mistérios divinos foram-lhe revelados. Depois desse encontro com Deus, ele seguiu o destino que lhe estava reservado. Foi, estranhamente, absolvido no julgamento, após um ano de reclusão na pequena cela. E partiu para a Índia francesa, onde a polícia britânica não poderia agir abertamente.


O Yoga Integral

Chegando em Pondichérry, em 1910, Sri Aurobindo percebe a necessidade de ampliar sua luta. É o problema da natureza humana e da crise da evolução do Homem enquanto espécie que se lhe apresenta como central. E, buscando novos caminhos, propõe uma síntese das linhas tradicionais de Yoga - Jñána (do conhecimento), Bhakti (da devoção), Rája (da meditação), Hatha (do corpo) e Karma (da ação desinteressada). Como ele mesmo afirmou, sua proposta diferencia-se do Tantrismo, porque, 
... no método da síntese que estamos seguindo, uma outra pista tem sido buscada, que é derivada de outra perspectiva das possibilidades do Yoga. Esta parte do método do Vedanta para chegar ao objetivo do Tantra. No método tântrico, a Shakti (energia vital, também conhecida como Kundaliní) é toda-importante e se converte na chave para o descobrimento do Espírito; nessa síntese, o espírito (ou a alma) é todo-importante e se converte no segredo da acepção da Shakti. (7)
Assim, nessa síntese, chamada Yoga Integral, o trabalho consiste numa espiritualização do ser, através do despertar da alma. Para isso, pode-se começar pelo Bhakti ou pelo Karma Yoga, pelo Jñána ou pelo Hatha - não importa, porque todos se encontram na auto-perfeição e no verdadeiro Si divino.

As artes tornam-se, também, nessa visão, meios privilegiados de expressão de sentimentos elevados - como a devoção e a entrega - podendo ainda reforçar ou confirmar uma experiência interior. Elas podem e devem ser cultivadas como meios de se entrar em contato com planos mais elevados, através da inspiração ou da expressão do próprio ser interior. Sri Aurobindo escreveu muitas cartas para seus discípulos, esclarecendo dúvidas sobre o papel da arte no caminho espiritual (8). E ele mesmo sempre procurou expressar poeticamente suas próprias vivências místicas. O épico Sávitri já foi considerado a Bíblia da nova era, por colocar toda a trajetória da vida manifesta - desde a mais completa inconsciência até à transformação da matéria, através da luta contra a morte - numa história baseada na antiga lenda indiana da princesa Sávitri, deusa solar (9).

Em Sávitri vamos encontrar indícios de que seu autor jamais abandonou a preocupação inicial com a coletividade, algo que o distingue completamente daqueles que seguiram caminhos espirituais mais comuns na Índia. Desvendando os segredos dos Vedas, Sri Aurobindo mergulhou na tradição mais antiga do seu país, anterior ao Vedanta e ao Budismo, que reforçaram a necessidade de se abandonar a vida para se trilhar o caminho espiritual. Ele descobriu o sentido primeiro da palavra máyá (deturpado por formulações posteriores). Para os antigos sábios videntes, os rishis, máyá é uma consciência compreensiva capaz de tudo abarcar, um poder criativo da Consciência, e não uma mera ilusão. E afirmou, baseado em suas experiências, a possibilidade desse planeta vir a se tornar um campo manifestado do Divino.


Acelerando a evolução

O Yoga Integral não faz nada mais do que acelerar a evolução e a transformação do estado mental atual de um e de toda a Humanidade por uma outra coisa que não é, também, o super-homem de Nietzche. Este não seria senão um homem elevado a seu cume natural, movido por seus próprios desejos egóicos.

Então, o que é essa nova Humanidade, esse novo homem, que teve nos grandes Mestres do passado os primeiros precursores? O que foram eles senão seres profundamente integrados e conscientes? Não há dúvidas de que vivemos hoje uma grande crise; ela já foi identificada como sendo moral, cultural, política e econômica. Mas o que ela desvela, senão o fato de que a razão falhou, ou melhor, deturpou-se num simples cálculo de interesses?

Ficou clara a disparidade entre as faculdades limitadas do homem, tal qual ele é até agora, e os meios técnicos e econômicos criados. Toda a vida na Terra passou a correr perigo, quando as "crianças humanas" criaram armas nucleares e fizeram guerras atômicas. Por isso, hoje, mais do que nunca, é preciso abraçar o novo e saltar para um outro nível de consciência transpessoal (sobremental e supra-mental, como chamou Sri Aurobindo).

Esses níveis estão involuídos e escondidos na natureza da Terra - no nosso próprio corpo, que durante tanto tempo foi renegado e massacrado. Para que possam emergir, "é preciso uma pressão dos mesmos poderes, já formulados em sua plena força nos seus próprios planos supraconscientes", disse Sri Aurobindo. 

No Yoga Integral, a alma, através da aspiração, da consagração de todas as ações, da inspiração, da entrega, da devoção e da arte, pressiona a descida dos poderes mais altos para dentro de nós, elevando e transformando o nosso ser. Assim, podemos dizer que nesse Yoga, à medida que estabelecemos e aprofundamos nosso relacionamento com o Transcendente, em suas inúmeras manifestações, ultrapassamos a etapa do esforço pessoal e percebemos que nos tornamos receptáculos de seu Amor, Poder e Conhecimento. Por fim, enquanto seres transformados e despertos, somos livres para agir no mundo, e começar a servir de instrumento para a ação direta do Ser que tudo criou e tudo sabe.

 

Marcus Wolff dirige o Espaço Cultural Aurovisão (Rua Sahy, 60, Bairro N. Sra. de Fátima, Teresópolis, RJ, CEP 25.958.000). 

Extraído da revista Cadernos Pránava, Ano II, Número 4, de julho de 1992, páginas 20 a 24, Pranáva Editora e Comunicação Ltda., Teresópolis, RJ, e digitado por Cristiano Bezerra. 

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